quarta-feira, 9 de junho de 2010

sentimentalismo é isso



Certo feriado, minha prima chegou com um sorriso e sentou ao lado do meu avô. Ele é português-nordestino, não é daquele tipo de pessoa que se deixa levar por um sorriso fácil, mas ela não desistiu e perguntou sobre o passado, sobre como ele havia chegado aqui, no Espírito Santo. Então ela conseguiu o que ninguém havia conseguido até aquele momento. Quando passei por eles de novo meu avô falava olhando para um ponto um pouco além, eu mesma nunca havia visto os olhos dele tão azuis e tão calmos e o sorriso da minha prima tão grande. Ele falava e falava contando aquelas histórias antigas. Ela perguntou como era lá no Rio Grande do Norte e ele começou a falar de novo. Eu que fui criada com ele a vida toda fiquei impressionada por ver ele falando por tanto tempo sem perder a paciência ou gritar, sentei na mesa e começei a ouvir também.

A única história que eu lembro mesmo é dele contando sobre o irmão mais velho que foi para uma dessas capitais tentar uma vida melhor, foi tão cedo que meu avô ainda era quase um bebê. Muitos anos depois estavam todos reunidos em casa quando esse homem chegou e pediu para falar com o pai dele.

Você sabe quem sou eu?” – o homem perguntou

Sei não” – respondeu meu bisavô naquele modo nordestino

Sou seu filho, aquele que foi embora pra capital” – o homem respondeu

Pois então venha cá e me dê um abraço, meu filho

Lembro do sorriso fraco e bobo do meu avô. Pura saudade. Minha prima – a única que herdou os olhos azuis– estava quase chorando. O meu avô também. Eu não. Eu sorria, porque eu só conhecia aquela pessoa séria de voz firme que nunca ficava vulnerável.

É uma das cenas mais bonitas que eu guardo da minha família, e principalmente, dele.

Hoje, no almoço, minha mãe começou a lembrar da minha infância e meu avô sorriu o mesmo sorriso que ele deu quando contou essa história. E sabe, acho que nenhum de vocês pode sequer imaginar, mas significou muito pra mim saber que eu tenho esse grau de importância pra ele.

Essa é uma das coisas que eu acho que deveriam ser colocadas em uma caixinha de cristal com todo o cuidado e amor que elas merecem, mas enquanto eu não ganho uma, fica por aqui mesmo.

3 comentários:

Morgana Rodriguez disse...

vermos que temos importancia na vida de alguém nos faz bem, não faz?
é quase mágico.
seu blog e lindo, jey. ^^

.laurel. disse...

Jey, essa história é linda! Me deu saudades do meu avô. Adorava escutar ele contanto as histórias dele.

E seu avô me lembrou minha avó. Ela é muito séria, mas algumas poucas vezes ela vem e me dá um abraço ou sorri, e é um momento muito mágico mesmo. Ainda mais quando se tem uns 30 primos...

(L)

Júlia disse...

AAAAH JEY
é nessas horas que eu sei que você tem alguma coisa além de sutiã no peito.
que história amor.
que momento amor, sério.
lindo.

 
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